Uma cidade acolhedora para crianças é boa para todos

As experiências nos primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da criança e para a formação do indivíduo. Em nenhuma outra fase da vida somos capazes de aprender tanto quanto na primeira infância, o período que começa na gestação e vai até os 6 anos de idade. Estudos mostram que, a cada segundo, algumas regiões do cérebro de uma criança chegam a fazer 1 milhão de novas conexões. Essa formidável capacidade de aprendizagem se mostra ainda mais presente na chamada primeiríssima infância, um recorte que compreende o período do nascimento aos 3 anos de idade. As vivências e experiências na primeira infância (desde sua formação no útero) afetarão – positivamente ou não - o potencial de aprendizado, saúde física e emocional e, até a renda durante toda a vida.

Não por acaso, muitos especialistas defendem a importância de se criar e assegurar um ambiente propício para o desenvolvimento de bebês e crianças, ampliando assim as chances de uma vida com melhores condições no futuro. Essa orientação tem ganhado cada vez mais espaço e tornou-se pauta prioritária em diversos campos de atuação.

Para tanto, é fundamental levar em conta aspectos como espaços públicos saudáveis e seguros para brincar e explorar, a mobilidade urbana, proximidade aos serviços básicos, o vínculo, a interação e o estímulo ao aprendizado, o direito ao brincar, bem como o planejamento familiar e de vida. Isso é essencial para o desenvolvimento integral dos pequenos. O direito ao brincar também. Precisamos garantir que meninos e meninas sejam acolhidos e atendidos em suas necessidades não só dentro de casa, mas também nas ruas, parques e demais espaços públicos da cidade. E aqui cabe uma pergunta importante: será que estamos conseguindo garantir essas condições favoráveis ao desenvolvimento infantil em nosso município? Estamos garantindo às nossas crianças o direito à cidade? Afinal, que infância queremos para nossas crianças?

É por isso que este observatório foi criado. Para ser uma iniciativa que se junta a várias outras com o propósito de contribuir com o movimento de colocar a criança no foco da gestão pública e do desenvolvimento urbano justo e sustentável. Afinal, uma cidade que acolhe as demandas da primeira infância promove a cidadania antes mesmo do nascimento. E contribui para a formação de adultos mais bem preparados para lidar com as demandas de um mundo cada vez mais complexo e dinâmico.

O Observatório da Primeira Infância é uma iniciativa da Rede Nossa São Paulo, realizada com o apoio da Fundação Bernard van Leer, com o objetivo de organizar e disponibilizar indicadores sobre as condições de vida de crianças de 0 a 6 anos. A abordagem envolve temas como saúde, educação, uso da cidade, infraestrutura e planejamento urbano, consumo responsável, cultura, esporte, economia criativa e sustentável e equidade social.

Ao todo, o observatório disponibiliza 130 indicadores relacionados à infância, identificados a partir de três referências gerais: o Programa Cidades Sustentáveis (PCS), que conta com indicadores alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS); o Prêmio Cidade da Criança, realizado pelo PCS em parceria com o Instituto Alana; e o Urban95, da Fundação Bernard van Leer que conta com indicadores separados pelos eixos saudável, segura e pública.

A construção do observatório

A definição dos conteúdos disponibilizados no Observatório da Primeira Infância considerou o vasto conhecimento já produzido sobre o tema e envolveu a escuta de organizações e especialistas que atuam na área. Ao longo do processo, também foram levantadas as inúmeras políticas setoriais e os pontos de conexão entre diversas iniciativas dedicadas à criança e à adolescência, indicadas aqui como boas práticas. Outra novidade da plataforma é o "mapa interativo", ferramenta desenvolvida com indicadores por distritos da cidade para que você possa comparar a desigualdade entre os distritos a partir dos indicadores que você quiser.

A partir desses diálogos, conceitos, políticas e experiências de referência, definimos uma lista de indicadores que os traduzissem ou procurasse revelar o quanto os direitos das crianças têm sido assegurados. Essa lista foi validada pelo Grupo de Trabalho de Crianças e Adolescentes da Rede Nossa São Paulo. Nessa interlocução, ficou clara a necessidade de se criar um espaço destacado para tratar das crianças mais vulneráveis, normalmente fora das estatísticas e com muitos direitos não assegurados, no capítulo “Crianças Invisíveis”.

Paralelamente, procuramos trazer a participação das crianças na construção do observatório a partir da campanha “Olhar das crianças”, que estimula seus responsáveis a circularem pelas ruas e espaços públicos com elas, para fotografar o que mais gostam e o que menos gostam na cidade. Com isso, foi possível observar os olhares e percepções a partir da perspectiva das próprias crianças.

Para conhecer esse processo de forma mais aprofundada, acesse o "Observatório da Primeira Infância em 5 passos: guia de multiplicação.

Fundação Bernard van Leer

A Fundação Bernard van Leer acredita que garantir a todas as crianças um bom começo na vida é a coisa certa a se fazer e a melhor forma de construir sociedades saudáveis, prósperas e criativas. Somos uma Fundação privada que desenvolve, compartilha conhecimentos e práticas bem-sucedidas no campo do desenvolvimento da primeira infância. Fornecemos apoio financeiro e técnico aos nossos parceiros – governos, sociedade civil e mundo empresarial – para testar e escalar serviços eficazes para crianças durante a primeira infância e suas famílias.

Nos últimos 50 anos, atuamos em todas as regiões do planeta, investindo mais de meio bilhão de dólares. As parcerias desenvolvidas durante este percurso contribuíram para o aprimoramento de políticas públicas em mais de 25 países, promoveram o aprimoramento de serviços e de práticas de capacitação - amplamente adotadas por governos e organizações não governamentais - e inspiraram iniciativas inovadoras.

Nossa estratégia 2016-2020: transformar para escalar
Depois de cinco décadas investindo no desenvolvimento da primeira infância, a Fundação Bernard van Leer entra agora em uma nova fase, em que o principal desafio é o de transformar para escalar. Muitas iniciativas para melhorar a saúde, a nutrição, a proteção e a aprendizagem das crianças durante a primeira infância provaram ser eficazes em projetos em pequena escala, mas como fazer para atingir centenas de milhares ou milhões de crianças?

Nossa estratégia ajudará a responder esta questão ao construir parcerias em três áreas:

Parents+ Combinar a formação de pais e mães em desenvolvimento na primeira infância com serviços que atendem às necessidades básicas das famílias.

Urban95 Incorporar no planejamento e gestão das cidades o foco no desenvolvimento da primeira infância.

Building Blocks Disseminar o conhecimento científico relacionado aos cuidados na primeira infância. Compartilhar as práticas mais bem-sucedidas na transição de programas de primeira infância de pequena para larga escala.

Rede Nossa São Paulo

A Rede Nossa São Paulo (RNSP) é uma organização da sociedade civil que tem por missão mobilizar diversos segmentos da sociedade para, em parceria com instituições públicas e privadas, construir e se comprometer com uma agenda e um conjunto de metas, articular e promover ações, visando a uma cidade de São Paulo justa e sustentável. Sua atuação é pautada pelo combate à desigualdade, pela promoção dos direitos humanos, pela participação e controle social, e pela transparência e respeito ao meio ambiente.

Fundada em 2007, a RNSP atua em parceria com diversos segmentos da sociedade na proposição e construção de uma agenda que apoie a gestão pública na formulação de políticas mais inclusivas. Atualmente, é responsável pela coordenação do Programa cidades Sustentáveis (PCS), presente em mais de 170 cidades brasileiras, e pelo desenvolvimento de metodologias e conteúdos como o Programa de Metas, o Mapa da desigualdade e o IRBEM (Indicadores de Referência de Bem-estar do Município), que conta com uma versão dedicada exclusivamente à criança e ao adolescente.

A experiência da Rede Nossa São Paulo gerou iniciativas semelhantes em várias cidades brasileiras e na América Latina, o que resultou na criação das Redes Social Brasileira por cidades Justas, democráticas e Sustentáveis e latino americana por cidades Justas, democráticas e Sustentáveis.